Gentilezas obsoletas
Eu conheci a Itália, o país onde vivo, em 2004. À época, meu confronto entre expectativa e realidade não tinha uma medida muito elástica. Tudo o que eu conhecia sobre o país antes da minha chegada cabia em uma pequena prateleira: duas revistas, alguns livros, o pesado guia ilustrado da Folha, poucos CD’s e DVD’s e uma foto da zia Michella em um pequeno terraço com no fundo o céu azul e a torre de Pisa. O privilégio imenso da ignorância. Não era um desconhecimento relacionado à falta de interesse - eram meus anos de desejar engolir o mundo numa bocada só-, mas simplesmente uma ignorância alimentada pela parca oferta de informação.
Ainda me lembro, no meu primeiro dia em Pisa, de colocar as mãos na testa e improvisar uma viseira que protegesse meus olhos do brilho do gramado da Piazza dei Miracoli. Em todas as imagens que eu tinha de Pisa, era só a torre - para mim mero detalhe dentro da composição monumental da inteira praça - que aparecia. O resto era o mistério que eu estava desvendando de alma limpa.
Anos depois, li muitos relatos dos viajantes de tempos remotos, principalmente durante o período do Grand Tour, movimento que deu origem ao que hoje conhecemos como turismo. Esse tipo de viagem, que durou mais de dois séculos (XVII ao XIX), era o momento em que os jovens da aristocracia europeia finalizavam seu percurso de estudos e partiam para explorar as paisagens, a arquitetura, a arte, os museus no território que compreendia a Itália. Os elementos que eles tinham para se preparar para a viagem eram livros escritos por outros grand turistas e tratados de arte e arquitetura. As fotos que eu via no guia ilustrado da Folha, na época deles eram os quadros que os vedutistas como Canaletto, Giovanni Battista Piranesi, entre outros, produziam à todo vapor.
Muitos desses mocinhos - mulheres eram a minoria- voltavam para casa com um retrato feito geralmente nas estradas de Roma por algum pintor especializado. Goethe, um dos mais famosos viajantes do Grand Tour, foi imortalizado nos campos romanos pelo pintor e companheiro de viagem Johann Tischbein. As novas gerações conhecem a versão que Andy Warhol fez para este mesmo retrato, em 1982.
Na minha geração e em meu círculo de convivência foram poucos os afortunados a terem gravuras analógicas de seus avós em viagens pelo mundo. Eu viajei para o exterior pela primeira vez antes dos meus pais terem essa experiência. Eles só vieram depois. É divertido quando proponho a alguns amigos e clientes que refaçamos as poses de seus avós e seus pais na frente da Ponte dos Suspiros ou em meio aos pombos da Praça São Marcos. Não tenho receio de dizer que hoje em dia, dentro desse contexto, esse tipo de fotografia é um dos poucos que faz sentido. Porque há quem queira repetir a pose da blogueira exatamente no mesmo local em que ela esteve, se puder no mesmo horário, com a mesma luz. Conhecem os pontos turísticos principais das cidades de arte, sabem os nomes de alguns artistas, mas não se emocionam quando se aproximam de suas obras.


Goethe por Andy Warhol (1982) e por Tischbein (1787)
Se a canoa não virar…
Em Veneza, cidade onde trabalho, o deslocamento não é muito simples. Suas estreitas ruas líquidas, como dizia Cecília Meireles, exigem capacidade de adaptação e paciência, cada vez mais. Pouco tempo atrás precisei usar o serviço público de gôndola para atravessar o canal principal que corta a cidade. Aflita com os minutos que passavam, desconfortável com o calor que fazia, imaginei que poderia chegar ao meu destino, que ficava na margem oposta, cortando caminho com a ajuda da travessia pela água.
Embora fosse uma manhã de um dia útil da metade do verão, antes mesmo de dobrar a esquina eu percebi que havia algo diferente. Um burburinho indefinido pela mistura de várias línguas, algumas para mim desconhecidas, se alastrava como os sinais sonoros das gaivotas. A fila devia ter mais de sessenta pessoas. Me assustei, fiz as contas mentalmente: se cada viagem sobem de dez a doze pessoas, eu vou ter de esperar pelo menos a sexta gôndola para pode subir e chegar do outro lado. Em uma toada diferente da dos turistas e mais próxima a das gaivotas autóctones, trabalhadores suados presos em camisa e gravata, e senhoras com carrinhos de feira manifestavam nervosos seu descontentamento: é tudo culpa das redes sociais, dos influencers, eles fazem vídeos, fotos, propagam o mal. O transporte público vira atração turística, a rotina vendida como produto de entretenimento. Fui a pé, cheguei a tempo para o meu compromisso.
Em várias ocasiões tive que desistir do sorvete que adoro. Alguém postou: cremoso, casquinha crocante, biscoito no topo, a mãozinha levantada com vista para o canal. Tentador, eu sei. Geolocalização ativada, mais jovens trabalhando, mais dinheiro entrando. A fila do sorvete ficou maior do que a fila do museu.
Não que nos tempos de Goethe a Itália fosse uma meta turística tranquila. Muitos viajantes do Grand Tour deixaram testemunhos sobre a quantidade de pessoas que transitavam por exemplo, por Nápoles, uma das cidades mais populosas da Europa à época. “Demorei seis semanas para visitar Nápoles, a cidade italiana mais populosa em relação à sua extensão territorial, cujos habitantes dissolutos parecem viver na fronteira entre o paraíso e o inferno”, relatou o historiador inglês Edward Gibbon.
“Caminhar por entre uma multidão tão inumerável e infatigável é deveras curioso e salutar. Que confusa torrente formam as pessoas, e, no entanto, cada uma delas encontra seu caminho e sua meta. Em meio a tão numerosa companhia e a tanto movimento, sinto-me verdadeiramente calmo e sozinho; quanto mais as ruas se agitam, tanto mais tranquilo eu me torno” - Goethe, Viagem à Itália (tradução Sérgio Tellaroli)
Gentilezas obsoletas
Meu marido me conta, que entre os anos 1970 e 1990, seus parentes tinham uma tabacaria em Jesolo, uma cidade litorânea muito movimentada e frequentada já desde o comecinho da primavera por alemães em busca de um quadradinho de areia morna. O maior faturado da pequena lojinha era, pasmem, proveniente dos cartões postais. Não era o jornal, o cigarro, os baldinhos de plástico que os sustentavam. Eram as palavras que viajavam quilômetros contando sensações em uma breve saudação.
Quem compra postal hoje em dia? Eu gosto de vasculhar as caixas de fotos, cartas e postais no mercado das pulgas . Os vendedores têm um extenso arquivo com testemunhos de desconhecidos que contam à sua maneira, um pedacinho da história de seu tempo. Postais e fotos custam geralmente um euro cada, e volto sempre pra casa com um envelopinho com pelo menos cinco. Mas parece mesmo que essa modalidade de afeto anda perdendo seu valor.
No Natal, eu que não sou boa com as mãos, resolvi replicar um trabalhinho do jardim de infância da minha filha e achei até fácil confeccionar quatro cartões com pedacinhos de papel coloridos que, em camadas, formavam uma árvore. Escolhi a quem iria enviar os tais cartões. A primeira pessoa a quem pedi o endereço me respondeu: ah, não precisa me enviar nada não, o que por pouco não me desencorajou a continuar meu projeto nostálgico. Mas segui com o meu propósito.
Achei curioso quando o funcionário dos Correios me deu os selos e deixou a mim a tarefa de colar nos envelopes. Eu estava para molhar o selo na língua e até senti no pensamento o gosto amargoso da cola, quando me dei conta que hoje em dia os selos são adesivos autocolantes. Olhei envergonhada para os lados para conferir que ninguém estivesse me olhando. Quando saí da agência com os envelopes na mão a procurar pela caixinha vermelha onde deposita-los, na rua estreita passava um grupo enorme de turistas. Fui empurrada por um homem jovem e bati com o ombro no muro, os envelopes caíram, a garrafinha de água que carregava saiu rolando. Para recuperar os cartões arrisquei ter uma mão pisoteada. Salvos, eles pularam para a caixinha vermelha e seguiram viagem levando meu afeto e minha falta de jeito. Na contramão dos meus envelopes coloridos pensei nas gentilezas tornando-se obsoletas como um cartão postal.
Finalizo com o texto de postal. A data é 1-10-1959, o destinatário é Pier Paolo Pasolini. Quem envia é Elsa Morante, da cidade de Nova Iorque.
Esta não é uma cidade, mas é a cidade, é o universo, o firmamento, as vísceras da terra. Milhões de anglo-saxões, italianos, espanhóis, chineses, negros, porto-riquenhos que correm pelas ruas. E cada um deles fala com você, como se fossem velhos conhecidos. Perguntam como você se chama e logo depois começam a te chamar pelo nome. Em volta, prédios com rochas imensas e automóveis coloridos como serpentinas.




Texto maravilhoso, viva!
Ah... é tão triste isso das pessoas não se importarem mais com afetos de papel. Eu sempre vasculhou em sebos por postais com mensagens, fotos. Eu sempre amei cartões de Natais e na época do Natal fazia meu pai gastar com os cartões que eu queria enviar para amigas W familiares. Eu ficava escolhendo entre os menos caros as imagens bonitas para enviar. Hoje isso se perdeu. Uma pena...
Beijo 🌸